Um novo mundo de nanoparticularidades







Brasília, 12/08/2010 - Um décimo de milésimo do diâmetro de um fio de cabelo é o responsável por uma das revoluções científicas mais geniais do planeta. Foi responsável até mesmo pelo menor poema do mundo. Um nanopoema de Arnaldo Antunes foi escrito em fio com 1 milésimo da largura de um cabelo. A idéia foi do poeta e músico Juli Manzi, em parceria com físicos da Unicamp a e do Centro de Nanociência e Nanotecnologia César Lattes do  Laboratório Nacional de Luz Síncontron. O poema-escultura “Infinitozinho”, de uma única palavra, foi grafado com tecnologia especial numa estrutura na escala de nanômetro (um nanômetro vale 1-9 metro), entusiasmou pesquisadores. 
Aliás, a idéia de escrever por esse método não é tão moderna assim. Em 1959, o físico americano Richard Feynman (1918-1988) originou a idéia da nanotecnologia, ou máquinas moleculares com sua famosa palestra “There´s plenty of room at the bottom” (Há lugar de sobra lá em baixo). Feynman desafiou os cientistas a pensar sobre a construção de dispositivos em escala atômica, propunha a exploração de um novo campo da física, para “manipular e controlar as coisas numa escala pequena". O que ele disse então? Afirmou ser possível copiar os 24 volumes da Enciclopédia Britannica na cabeça de um alfinete. E mais, que seria possível copiar todos os volumes da Biblioteca do Congresso dos EUA, da biblioteca do Museu Britânico e da Biblioteca Nacional da França no espaço de 24 milhões de cabeças de alfinete -três metros quadrados.
O que há pouco parecia impossível e difícil de alcançar a compreensão humana já se tornou comum e já é usado em muitas áreas, até mesmo no vestiário, mas ainda não temos os arquivos das bibliotecas recomendadas por Feynman. Quando será possível isso? Qual o tempo necessário para tanto, já que é possível criar códigos genéticos artificiais?
Agora imagine uma embalagem que muda de cor assim que o alimento nela contido começa a se deteriorar. Pois isso também já é realidade com a nanotecnologia. O tema é instigante, porém polêmico. Foi o que mostrou a pesquisadora Izabela Dutra Alvim, do Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL), no segundo dia do 3º Congresso Nacional de Gastronomia. Para ela, é preciso ainda muita reflexão e estudos sobre o uso da nanotecnologia, pois “como qualquer revolução inovadora, que lida com manipulação genética, pode-se usá-la tanto para o bem como para o mal”.
“Pode-se brincar de Deus?” é o que teme a pesquisadora ao apontar a criação de um código genético artificial capaz de induzir células vivas a criar proteínas com propriedades nunca vistas no mundo natural. Ou ainda uma pesquisa desenvolvida no Japão, em que pesquisadores borrifaram uma folha com água mais nanotubos de carbono, uma lagarta depois de comer um pouco da folha, tece um fio de seda mais forte que aço. Segundo Alvim, isso é temerário, pois pode ser usado para material bélico, como roupas á prova de bala.... O futuro é incerto!! Por isso, muita vigilância é o que pedem pesquisadores comprometidos com a seriedade das pesquisas, e só liberar produtos depois de muitos testes e verificar se eles não vão atingir a saúde de quem está consumindo o produto.
Mas não só de expectativas de risco vivem os pesquisadores à espera de um código de ética que regulamente as pesquisas. Pesquisas médicas que podem reconstituir, por exemplo, a orelha, e a indústria de alimentos, recorrem cada vez mais à nanotecnologia. É possível proteger frutas e verduras de bactérias usando nanopelículas e muitas outras aplicações, como as embalagens inteligentes.
Mas o que tem de mais significativo nessas pesquisas é, segundo Izabela Alvim, explicar os porquês das coisas, como elas acontecem. Essa é a grande contribuição. Ela explica que esse procedimento é usado há milhares de anos sem que soubéssemos disso, como no caso dos vitrais vermelhos que os romanos produziam misturando cloreto de ouro com vidro derretido. Nesse processo, eles criavam nanopartículas de ouro que absorviam e refletiam a luz do sol produzindo uma intensa cor rubi. Ou ainda a técnica chinesa de produzir o nanquim à base de negro de fumo (nanopartículas, hoje utilizadas para formação de nanocompósitos (borrachas reforçadas). (Inês Ulhoa)

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