Comportamento Alimentar Do Adulto

Por Dra Juliana da Silveira Gonçalves – Nutricionista RS


“... No que diz respeito ao tema alimentação... A antiga distinção entre o espírito e o corpo, entre a matéria e o intelecto, parece desaparecer diante da necessidade de compreender, em sua complexidade, os comportamentos alimentares do homem 1.”
A alimentação é fundamental à sobrevivência humana, é um ato inscrito na origem cultural do homem, desde os registros mais remotos da civilização. É considerado um modo de relacionamento e comunicação humano. E, em todos os tempos, da religião, à antropologia, à psicologia, à ciência e à política, a alimentação está inserida contínua e intimamente na vida humana 2.
Práticas alimentares têm repercussões importantes no estado da saúde. Sabe-se que a promoção de mudanças nas práticas alimentares faz parte das metas para atingir a saúde. São necessárias mudanças baseadas na escolha e no preparo dos alimentos de maneira que promovam a adoç
ão de uma alimentação mais saudável 3.
O comportamento alimentar é caracterizado pelo um conjunto de ações relacionadas ao alimento que começa com a decisão, disponibilidade, modo de preparo, utensílios, horário e divisão da alimentação nas refeições do dia e encerra com a ingestão do alimento. A diversidade geográfica e os hábitos regionais, bem como prestígio social, tamanho da porção e o local onde a refeição é realizada fazem variar as atitudes relacionadas ao alimento 4.
As influências que determinam o comportamento alimentar de um indivíduo não ocorrem somente no jovem e no adulto. Iniciam na infância, quando a família estimula o bebê a experimentar alimentos comuns na cultura no qual está inserido. Quando criança, tais influências alimentares continuam ocorrendo principalmente pelas práticas culturais e éticas dos pais 5,6.
A concepção do comportamento alimentar ocorre através de uma variedade de perspectivas, sendo o processo mecânico de ingestão a ampla extensão de atitudes, sentimentos, sensações, experiências, motivações, conhecimentos bem como processos fisiológicos que acompanham a digestão 7
Os fatores determinantes para o comportamento alimentar desdobram-se, dentre tantos, nas características sociodemográficas do indivíduo (tais como sexo, etnia, escolaridade e estado civil), nos aspectos psicológicos e emocionais, nos fatores culturais, nas características pessoais (como peso e imagem corporal), bem como na própria política de globalização mundial da alimentação 8,9. Ou seja, abordar o comportamento alimentar exige contextualizar e relativizar os fatores a ele relacionado 10.
Vale ressaltar que as atitudes em relação à comida, pautam-se em um aprendizado que inicia bem cedo, na mais tenra idade, reforçado por adultos afetivamente poderosos 11. Por ser uma atividade diária, constante, envolve uma rotina de aprendizado com base no reforço positivo e negativo e na satisfação e frustração ante os comportamentos entre tantas outras questões 10.
O comportamento alimentar é complexo e inclui determinantes externos e internos ao sujeito, sendo que o acesso aos alimentos, na sociedade moderna, é determinado pela estrutura socioeconômica, envolvendo as políticas econômica, social, agrícola e agrária 12.
O conhecimento e o entendimento das influências mais críticas nas escolhas alimentares, assim como a determinação de quais estão sujeitas a modificação, são fatores que podem auxiliar os profissionais de saúde no desenvolvimento de intervenção mais efetivas a adoção de dietas saudáveis 13.
Diante de todos estes desafios sobre o correto comportamento alimentar, e, sobretudo nos casos mais graves, é fundamental que o profissional da nutrição possa contar com o apoio de outros profissionais. Sob essa ótica, o trabalho em equipes multidisciplinares tem-se revelado especialmente promissor. Ele é favorável ao paciente, que poderá ter várias intervenções para sua problemática integradas em uma abordagem comum, possibilitando a potencialização mútua dos diferentes instrumentos, e ao nutricionista, que poderá não só ampliar sua compreensão daquele indivíduo específico, como também obter suporte de seus colegas, pois como membro dessa sociedade pós moderna, ele também corre o risco de avaliar sua capacidade profissional pelo sucesso de seu paciente 2.

Referências:
1. Flandrin JL, Mantanari M. História da alimentação. São Paulo: Estação Liberdade; 1998. p 15-23.
2. Brasiliano S, Bucaretchi HA, Kachani AT. Aspectos psicológicos da alimentação. In: Cordás TA, Kachani AT. Nutrição em Psiquiatria. Porto Alegre: Artmed; 2010. p 23-33.
3. Marinho MCS, Hamann EM, Lima ACCF. Práticas e mudanças no comportamento alimentar na população de Brasília, Distrito Federal, Brasil. Rev. Bras. Saúde Matern. Infant., 2007; 7 (3): 251-61.
4. Philippi ST, Latterza AR, Cruz ATR, Ribeiro LC. Pirâmide Alimentar Adaptada: guia para escolha dos alimentos. Rev. Nutrição 1999; 12(1): 65-80.
5. Assis MAA, Nahas MV. Aspectos motivacionais em programas de mudança de comportamento alimentar. Rev Nutr 1999; 12(1): 33-41.
6. Pedraza DF. Padrões Alimentares: da teoria à prática – o caso do Brasil. Rev Virtual Humanidades 2004: 3. Disponível em: http://www.seol.com.br/mneme. Acesso em: 10 junho de 2011.
7. Hammer LD. The development of eating behavior in childhood. Prediatric Clinics of North America 1992; 39 (3):379-94.
8. Cohen GN. Transtornos em la alimentación: la outra etiologia. In: Beber E, Benedetti C, Goldvarg N. Anorexia y bulimia u outros transtornos de la conducta alimentaria: practicas interdisciplinarias. Buenos Aires: Atuel; 1996. p 65-72.
9. Toral N, Slater B. Abordagem do modelo transteórico no comportamento alimentar. Ciên Saúde Coletiva 2007; 12 (6): 1641-50.
10. Rossi A, Moreira EAM, Rauen MS. Determinantes do comportamento alimentar: uma revisão com enfoque na família. Rev Nutr 2008; 21 (6): 739-48.
11. Kotait MS, Barillari ML, Conti MA. Escalas de avaliação de comportamento alimentar. In: Cordás TA, Kachani AT. Nutrição em Psiquiatria. Porto Alegre: Artmed; 2010. p 59- 76.
12. Mintz SW. Comida e antropologia: uma breve revisão. Rev Bras Ci Soc 2001; 16 (47): 31-41.
13. Garcia RWD. Reflexos da globalização na cultura alimentar: considerações sobre as mudanças na alimentação urbana. Rev Nutr 2003; 16 (4): 483-92.

0 comentários:

ÚLTIMOS COMENTÁRIOS

ARQUIVO