PARECER CONSELHO NUTRIÇÃO SOBRE LEITE

PARECER CRN-3 SUPRIMENTO DIETÉTICO DE CALCIO: UMA QUESTÃO PARA A PRÁTICA DO NUTRICIONISTA INTRODUÇÃO 

O Conselho Regional de Nutricionistas – 3ª Região, cumprindo com o papel de orientar os profissionais no exercício de suas atribuições e, visando a prestação de serviço, emite parecer sobre a prescrição de suprimento dietético de cálcio pelo nutricionista. 

CONSIDERAÇÕES 
A ciência da nutrição oferece amplo conteúdo cientifico a respeito da importância do estado nutricional do indivíduo em relação ao cálcio e disponibiliza inúmeros estudos que demonstram os complexos mecanismos que envolvem sua ingestão, digestão, tempo do transito intestinal e excreção(17,25), assim como seu envolvimento na saúde óssea (raquitismo, osteomalácia e osteoporose)(2,3,4,7,21), na síndrome da resistência a insulina(18,20), na pressão arterial(5,10,24,), na obesidade(1), no peso corporal(22,23,), no câncer(9,11,12,13), dentre outros. A bibliografia apresentada pode dar um panorama destas ações de forma mais pontual. Por sua vez, organismos internacionais já estabeleceram as recomendações diárias para ingestão de cálcio, em diferentes fases da vida (DRIs) (8,26), embora ainda em nível de ingestão adequada (AI), devido à dificuldade em se estabelecer quantidades ideais de ingestão para um nutriente que se incorpora no organismo ao longo da vida. Com base nestas recomendações, observa-se que o consumo é insuficiente tanto no Brasil como em diversas regiões do planeta (3,25). Dessa forma, a discussão que subsiste, e que está diretamente associada à prática do Nutricionista, refere-se à definição das fontes dietéticas mais adequadas para suprir as necessidades de cálcio, levando em consideração as variáveis incluídas nos estudos disponíveis. Em condições favoráveis, o aproveitamento metabólico do cálcio varia entre 25 a 40% do valor ingerido (3,6,25), indicando que a seleção dos alimentos para suprir as necessidades desse nutriente deve privilegiar aqueles cuja composição química apresente valores mais elevados. Deve-se ressaltar, entretanto, que o cálcio pode ter baixa absorção em alimentos ricos em ácido oxálico, como por exemplo, no espinafre e feijão, como pode ser visto na tabela abaixo. 












Focando especificamente a saúde dos ossos, deve-se considerar que além do cálcio, outros nutrientes também são necessários, tais como proteínas, vitamina D, potássio, magnésio, zinco, nutrientes estes que estão em quantidades importantes no leite (7,14,15,). Segundo Nicklas et al (15) para garantir a ingestão adequada de cálcio e magnésio é necessária a ingestão de 3 a 4 porções diárias de produtos lácteos, aumentando-se para mais de 4 porções para atender a recomendação de potássio. 

CONCLUSÃO 
Assim, pelo exposto, pode-se concluir que a supressão do consumo de produtos lácteos, além de não encontrar respaldo na literatura científica, representa efetivo prejuízo para a saúde individual e coletiva. Aspectos ligados a alergias devido a proteínas como, por exemplo, a β- lactoglobulina, podem ocorrer, entretanto são muito raros (19), assim como em relação à inflamação, pois o leite mesmo pasteurizado ainda contém uma citocina imunoregulatória (TGFβ – transforming growth factor – β) capaz de dar proteção contra colite e endotoxemia experimental (16). Portanto, Indivíduos que não consomem produtos lácteos, seja por intolerância, paladar ou opção dietética, devem submeter-se a cuidadosa avaliação nutricional que muito provavelmente, indicará a necessidade de consumo de suplementos nutricionais para garantir o suprimento dos vários nutrientes normalmente obtidos pela ingestão suficiente de produtos lácteos. Acrescente-se ao exposto que a recomendação diária de consumo de cálcio é de 1000 a 1300 mg/dia para diferentes grupos etários, enquanto que resultados de estudos recentes mostram que no Brasil a ingestão de cálcio em média varia de 300 a 500 mg (3). Esta constatação dá a medida da responsabilidade do nutricionista quanto a este tema, na condução da sua orientação dietética. 

RECOMENDAÇÃO 

O Conselho Regional de Nutricionistas recomenda aos profissionais inscritos especial atenção para as consequências de recomendações dietéticas que indiquem a supressão do consumo de produtos lácteos. Reconhece eventuais transtornos que este consumo possa trazer para indivíduos com intolerância à lactose ou mesmo com alergias (mais raras). Entretanto, a restrição indiscriminada, pode representar grandes prejuízos para a saúde de indivíduos e grupos populacionais. Alerta ainda que a literatura científica não contempla a proposta de, como medida de rotina, suprimir o consumo de produtos lácteos. Recomendações pontuais e pessoais nesse sentido deverão estar amplamente justificadas do ponto de vista nutricional, além de exigir permanente acompanhamento dietético para prevenir as deficiências nutricionais decorrentes dessa supressão. Recomenda ainda que o atendimento nutricional rotineiro do nutricionista enfatize a necessidade do consumo de 2 a 4 porções diárias de produtos lácteos, conforme recomendações de organismos internacionais, mas que nesta impossibilidade, esteja apto a oferecer assistência dietética alternativa suficiente e necessária para garantir ao seu cliente a ingestão diária dos nutrientes que seriam fornecidos com o consumo deste grupo de alimentos, nas quantidades recomendadas. 

Dra. Vera Barros de Leça Pereira CRN-3 0003 
Dra. Silvia Maria Franciscato Cozzolino 
CRN-3 0621 

Parecer aprovado na 932ª Reunião Plenária Extraordinária de 25/3/2010 

BIBLIOGRAFIA 1. 
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