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Mulher atleta e a disfunção endotelial


Por Dra Rita de Cassia Sales Coutinho Caputi – Nutricionista RJ



Nos últimos 30 anos, o panorama do atletismo feminino mudou dramaticamente, com um aumento de 15 para 44%, até 2009, no número de atletas femininas. As mulheres conquistaram não somente oportunidade de competir em esportes nos níveis mais elevados, assim como alto-estima e confiança aumentadas, além da chance de reduzidos uso de drogas e gravidez na adolescência. As mulheres estão desafiando os homens inclusive em termos de poder aquisitivo.

Apesar disso, ainda há diferenças entre os sexos feminino e masculino. Fisiologicamente, as mulheres têm menor oferta de oxigênio em relação aos homens, porque elas possuem corações anatomicamente menores, débito cardíaco, níveis de hemoglobina e pulmões menores, tendo então menor capacidade vital. Biomecanicamente, possuem em geral, pelve maior que os homens, havendo uma maior anteversão femoral (inclinação do fêmur para a frente do eixo vertical) e joelho valgo (pernas arqueadas) nas mulheres; diferenças de alinhamento nas extremidades inferiores, junto à insuficiente estabilização do quadril, podem levar a lesões relacionadas ao exercício, como dor femoro-patelar. Mulheres com esta dor têm 26% menos força abdutora de quadril e 36% menos força de rotação externa do quadril.

As atletas também sofrem pressões psicológicas, exclusivas. As culturas ocidentais têm enfatizado fortemente a ultra-magreza como o tipo ideal de corpo feminino. Para melhorar o desempenho e se adequar nesse padrão de magreza, muitas vezes sob excessivo controle dos pais ou do treinador, as atletas acabam desenvolvendo transtornos alimentares.

Assim, muitas mulheres atletas enfrentam, sem perceber, um exclusivo grupo de problemas de saúde, mais especificamente, a Tríade da mulher atleta (ou Tríade), atualmente definida pela American College of Sports Medicine (ACSM) como um conjunto de inter-relações de disponibilidade de energia (ou DE = energia da dieta, usada pelo organismo para outras funções corporais após o gasto energético no exercício), função menstrual e densidade mineral óssea (DMO), podendo trazer manifestações clínicas extremas como distúrbios alimentares, amenorreia (ausência de fluxo menstrual) e osteoporose.

Esse distúrbio afeta várias categorias esportivas: futebol feminino, balé, atletismo, etc. Inclusive, devido às inúmeras cobranças da atualidade, segundo uma pesquisa, até jovens sedentárias estão propensas a apresentar esse problema: de 80 alunas atletas e 80 alunas sedentárias (exercício por menos de duas horas/dia) de segundo grau avaliadas, 36% das atletas tinham baixa DE, 54% tinham amenorreia ou oligomenorreia (redução do fluxo menstrual) e 13% tinham baixa DMO; uma das atletas, jogadora de futebol, possuía os três componentes da Tríade. Das sedentárias, 39% possuíam baixa DE, 21% relataram disfunção menstrual e 20% tinham baixa DMO; uma das alunas sedentárias também possuía os três componentes da Tríade. Ou seja, atletas e não-atletas devem ser avaliadas para prevenir ou tratar tal distúrbio.

Atualmente, há crescente evidência na relação entre a Tríade e seu possível quarto componente, a disfunção endotelial (vasos sangüíneos), mais um motivo de preocupação na patogênese da doença cardiovascular. Segundo a pesquisa Saúde Brasil 2009, as doenças cardiovasculares ainda são as que mais matam no país. O risco aumenta após a menopausa, quando os níveis de estrogênio diminuem. Sabe-se que os vasos coronários e vasculares contêm receptores de estrogênio, que permitem que o estrogênio regule a função vascular, estimule produção de óxido nítrico (NO; dilatador dos vasos sangüíneos), além de inibir a agregação plaquetária (formação de trombos), o LDL-colesterol e outros processos ateroscleróticos. Na amenorréia associada ao atletismo, semelhante à menopausa, os níveis de estrogênio estão baixos, o que teoricamente, causaria prejuízo às células do endotélio e um conseqüente prejuízo à dilatação arterial.

O padrão-ouro para avaliar a função endotelial é a ultra-sonografia de alta resolução, para examinar o diâmetro da artéria braquial (do braço). Estudos mostram que, quanto maior a disfunção endotelial da artéria braquial, maior é a disfunção endotelial da artéria coronária, relação esta muito importante, pois a disfunção endotelial da artéria coronária está ligada a eventos cardiovasculares. Um estudo verificou que a dilatação fisiológica da artéria braquial, decorrente do fluxo sangüíneo, estava significativamente reduzida em adultas jovens (< 40 anos) com evidências de doença arterial coronariana. Em atletas, a função endotelial prejudicada pode acelerar o desenvolvimento de doenças cardiovasculares ou eventos, durante anos ou até décadas.

A maioria dessas atletas ainda são muito jovens, em fase de crescimento e desenvolvimento corporal. Por isso, antes e ao longo da vida esportiva, são de suma importância consultas periódicas a um médico cardiologista, para que sejam sempre realizados exames de check-up geral, além de consultas periódicas a um profissional psicólogo e a um nutricionista, sendo essencial a participação da família da atleta. Nas consultas com o nutricionista, deve haver uma conscientização dos familiares em relação a uma alimentação individualizada, equilibrada e variada, segundo as necessidades diárias de cada pessoa e modalidade esportiva, e não uma alimentação restritiva, com exigências de um corpo “perfeito”, aparentemente mais “atlético”, porém sem saúde.

Fontes:

* Lanser, Erica M.; Zach, Karie N.; Hoch, Anne Z. The female athlete triad and endothelial dysfunction. PM R 2011; 3:458-465.

* Hoch, Anne Z.; Papanek, Paula; Szabo, Aniko; Widlansky, Michael E.; Schimke, Jane E.; Gutterman, David D. Association between the female athlete triad and endothelial dysfunction in dancers. Clin J Sport Med 2011; 21:119-125.

* Ministério da Saúde. Doenças cardiovasculares matam mais. Disponível em: http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/clipping2011.pdf

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